Numa das excursões que efetuei, crianças entre os 3 e os 10 anos atiravam-se para a frente dos carros: pediam comida, água potável, roupa, o que fosse.
Uma mãe aproximou-se para mendigar. Trazia um bebé ao colo — devia ter poucos meses — e acompanhava-se de mais alguns filhos (seriam vizinhos?) a quem incentivava a correr na estrada para nos alcançar. Não sei se por ignorância, ou se toldada pela miséria, parecia completamente alheia ao perigo de atropelamento ou às consequências sociais que tal conduta acarreta.
De facto, fica difícil não dar uma moeda a uma criança destas. Mas a verdade é que, ao receberem dinheiro e comida, acabam por abandonar a escola. Consideram que na rua têm maior proveito, tanto para elas como para as famílias, que são muitas vezes a força motora para a continuidade deste problema. É devastador.
As oportunidades de emprego são escassas. As principais atividades giram em torno da pesca e da agricultura, sendo a produção de cana-de-açúcar uma das valências com maior preponderância. Na sua génese, está associada a fatores históricos, como a colonização espanhola e o estabelecimento de plantações durante este período. A produção é utilizada para diversos produtos, incluindo o açúcar, rum (como o Barceló) e biocombustíveis; a colheita é bianual e feita manualmente.
A República Dominicana tem localidades onde ainda não existem transportes públicos. O que não só dificulta a mobilidade dos cidadãos, como limita o seu acesso a oportunidades de trabalho, saúde e educação. Assim, a maioria dos habitantes desloca-se de mota (sempre sem capacete, claro).
Alguns estrangeiros e investidores têm utilizado esta lacuna em seu proveito: compram terrenos e casas — entenda-se barracas — que deitam abaixo para construir parques de estacionamento, onde irão depois cobrar o equivalente a 1€ por dia.
Sou uma privilegiada, resido em Zurique, onde os transportes são tão eficazes que durante 3 anos vivi aqui sem carro. Mas lembro-me da minha cidade, Lisboa, e da quantidade de vezes que mamei com o trânsito da ponte só para não ir de transportes... São um pavor! — reclamava eu — as pessoas cheiram mal, fazem greves, o metro chega sempre atrasado... Ai mulher, calada eras poeta! Tomara estes meninos terem 1/4 das condições que temos em Portugal.
Sabendo que a pobreza mora ali ao lado, chocou-me bastante o desperdício da maioria dos resorts. São uma fartura, uma quantidade indecifrável de pratos de carne e de peixe, frutas, legumes, sobremesas, lagosta e camarão, 50 tipos de pão, tudo em abundância! Nem em capacidade total os hóspedes poderiam consumir tudo aquilo. Que raio de turismo é este?
Por curiosidade, perguntei a um dos empregados o que fazem com aquela quantidade de comida todos os dias.
_Deitamos fora. — Enquanto eu tentava disfarçar o choque, ele prosseguiu — ou então damos aos porcos.
Senti-me mal. Triste. Olhei à minha volta e observei que, para além do desperdício da própria unidade hoteleira, os hóspedes são os primeiros a comportar-se como autênticos grunhos. Se é tudo incluído, é à grande! E lá vão eles com 3 hambúrgueres no prato quando não comem nem metade.
As mesas são abandonadas sempre com "restos" de comida. Recorde-se que são levantadas por pessoas cuja maioria cresceu no meio da escassez e para quem aquele prato de cereais ou de salada que ficou inteiro no prato seria uma dádiva. É um turismo pouco consciente, pouco empático, pouco tudo. É um sistema "all inclusive" onde a maioria fica de fora.
É fundamental apreciar não só a beleza natural da República Dominicana, mas também reconhecer e apoiar as comunidades que vivem além dos cartões-postais.
Por um turismo mais consciente, cheers!
Tatiana Terreiro
Provocadora de Viagens